Manaus (AM) – Os oito deputados federais do Amazonas consumiram juntos R$ 1.787.104,52 da chamada Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), conhecida popularmente como “Cotão”, apenas nos seis primeiros meses de 2025. O valor equivale a aproximadamente R$ 10 mil por dia no período, segundo dados do Portal da Transparência da Câmara dos Deputados.
A verba é destinada à cobertura de despesas inerentes ao mandato parlamentar, como aluguel e manutenção de escritórios políticos, passagens aéreas, consultorias, hospedagem, alimentação e divulgação da atividade parlamentar. No entanto, os altos valores e a disparidade entre os gastos de cada parlamentar reacendem o debate sobre a transparência, os critérios de uso e a real necessidade desse recurso público.
Quem mais gastou
Na liderança do ranking de gastos aparece o deputado Sidney Leite (PSD), que utilizou R$ 289.847,25 do Cotão no semestre. Ele é seguido de perto por Pauderney Avelino (União Brasil), com R$ 276.924,90, e Adail Filho (Republicanos), que gastou R$ 275.648,48.
Na outra ponta, o deputado Amon Mandel (Cidadania) se destacou como o mais econômico da bancada, utilizando apenas R$ 34.334,62 – média de cerca de R$ 190 por dia. A postura do parlamentar vai na contramão da maioria dos colegas, repetindo o comportamento adotado em seu mandato anterior como vereador em Manaus, quando também abriu mão da cota parlamentar.
Divulgação parlamentar lidera gastos
A categoria de divulgação da atividade parlamentar foi a que mais consumiu recursos da CEAP no Amazonas, com um total de R$ 566.715,68. O principal destaque neste item é Adail Filho, que gastou R$ 190 mil somente com publicidade institucional. Em seguida aparecem Sidney Leite, com R$ 136,5 mil, e Pauderney Avelino, com R$ 85.235,68.
Mais uma vez, Amon Mandel foi o único a não utilizar qualquer quantia com divulgação, reforçando seu perfil de austeridade.
Veja quanto cada deputado federal do Amazonas gastou no 1º semestre de 2025:
- Sidney Leite (PSD) – R$ 289.847,25
- Pauderney Avelino (União Brasil) – R$ 276.924,90
- Adail Filho (Republicanos) – R$ 275.648,48
- Átila Lins (PSD) – R$ 257.572,59
- Fausto Júnior (União Brasil) – R$ 248.727,68
- Silas Câmara (Republicanos) – R$ 242.239,79
- Alberto Neto (PL) – R$ 161.809,21
- Amon Mandel (Cidadania) – R$ 34.334,62
Todos dentro do limite, mas com grande variação
Cada deputado tem direito a até R$ 49.363,92 por mês, o que representa R$ 296.183,52 por semestre. Apesar de todos os parlamentares estarem dentro do teto legal, os números mostram estilos bem distintos de atuação e de uso da verba pública.
A disparidade nos gastos também levanta questionamentos sobre a efetividade das regras de controle e fiscalização do uso da CEAP.
Transparência e fiscalização ainda são desafio
Desde sua criação, o Cotão é alvo de críticas recorrentes por ser um instrumento com margem para desvios e uso indevido. Embora a verba tenha por objetivo permitir o bom funcionamento dos mandatos parlamentares, a falta de critérios rígidos, ausência de auditorias independentes e a generalidade de algumas categorias (como “consultoria” e “publicidade”) abrem brechas para uso político e até pessoal.
Organizações da sociedade civil, como a Transparência Brasil e a Operação Política Supervisionada (OPS), vêm pressionando por regras mais claras, prestação de contas detalhada e sanções mais efetivas para o uso abusivo da CEAP.
Gastar menos é possível?
A postura de Amon Mandel volta a alimentar esse debate. Ele é frequentemente citado como exemplo de que é possível exercer um mandato ativo com menos gastos, o que desafia o argumento de que os altos valores são necessários. Seus críticos, no entanto, dizem que isso pode comprometer o alcance do mandato em um estado de dimensões continentais como o Amazonas.
De um lado, a autonomia parlamentar é importante. De outro, o uso ético e transparente do dinheiro público é uma demanda crescente da sociedade brasileira, especialmente em tempos de desconfiança generalizada na política.