As investigações da Operação Erga Omnes escancaram um esquema criminoso que, segundo a Polícia Civil, ultrapassava os limites do tráfico e avançava para dentro de instituições públicas e até religiosas no Amazonas.
De acordo com os investigadores, Allan Kléber Bezerra Lima, apontado como líder de um núcleo do Comando Vermelho infiltrado no serviço público estadual, utilizava uma igreja evangélica localizada no bairro Zumbi, Zona Leste de Manaus, como parte de uma estratégia para despistar a polícia e dar aparência de vida lícita às suas atividades criminosas.
Segundo a polícia, Allan frequentava o templo regularmente, vestia-se como fiel e mantinha uma rotina aparentemente comum para não levantar suspeitas. Em uma ocorrência anterior, ele teria inclusive escondido entorpecentes dentro da própria instituição religiosa. As apurações revelam ainda que outro alvo da operação chegou a morar dentro de uma igreja evangélica, fortalecendo a suspeita de que templos estavam sendo usados como pontos de apoio logístico, esconderijo de drogas e refúgio contra ações policiais.
“Pagava todo mundo”
Mensagens extraídas de celulares apreendidos durante a investigação mostram que Allan se gabava de possuir influência em diferentes esferas do poder público. Em conversas interceptadas, ele afirmava que “pagava todo mundo” e que não temia ser preso por contar com uma suposta rede de proteção institucional formada por agentes públicos corrompidos.
A investigação também aponta que o grupo utilizava a empresa A.F.S. Pinho Ltda., registrada em nome de Antônia Fabiane Silva Pinho, esposa do suspeito, como fachada para movimentar dinheiro ilícito. Transferências via Pix identificadas pelos investigadores indicam pagamentos relacionados ao aluguel de veículos que seriam utilizados no transporte de drogas.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelaram movimentações consideradas atípicas que somam R$ 73.151.169,00 ao longo de sete anos. Segundo a polícia, os valores circulavam por meio de empresas de fachada, principalmente nos setores de transporte e logística, utilizadas para viabilizar a compra de drogas na Colômbia e o envio para Manaus — de onde os entorpecentes eram redistribuídos para outros estados do país.
Allan Kléber segue foragido. Ele conseguiu escapar de um cerco policial em São Paulo na manhã da última sexta-feira (20), poucas horas antes da deflagração da Operação Erga Omnes. Já a esposa dele foi presa durante o cumprimento dos mandados judiciais.
Parte dos investigados já foi detida, enquanto outros continuam sendo procurados. A polícia estima que o grupo tenha movimentado cerca de R$ 70 milhões apenas nos últimos quatro anos, utilizando empresas de fachada, corrupção de agentes públicos e até templos religiosos como esconderijo para drogas e integrantes da facção criminosa.