Manaus – Maria das Dores, conhecida popularmente como Dona Dadá, foi uma das figuras mais emblemáticas do Centro de Manaus, especialmente entre as décadas de 1990 e 2000. Quem frequentava a região central da capital amazonense nesse período certamente se lembra de sua presença constante em locais como a Caixa Econômica Federal, a avenida Sete de Setembro, a Praça da Matriz e outros pontos históricos da cidade. Ela também costumava ser vista com frequência na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, sobretudo às terças-feiras.
De baixa estatura e chamando atenção por onde passava, Dona Dadá causava impacto imediato nas pessoas por uma condição evidente: ela não possuía braços nem pernas. Ainda assim, construiu uma trajetória marcada por resistência, trabalho e dignidade, tornando-se um símbolo de superação nas ruas de Manaus.
Este relato tem como base, principalmente, uma entrevista concedida por Dona Dadá à jornalista Vivi Cattan, publicada pelo Portal do Holanda em 2013, que ajuda a reconstituir a história de vida dessa mulher marcada por dificuldades, fé e perseverança.

Dona Dadá nasceu no município de Milagres, no interior do Maranhão, em uma família humilde composta por seis irmãos. Parte deles permaneceu no estado de origem, enquanto outros se mudaram para Belém e diferentes regiões do Norte do país. Desde a infância, conviveu com severas limitações físicas provocadas por uma condição rara, nunca diagnosticada com precisão pela medicina.
Ela própria relatava que nasceu sem os membros superiores e inferiores e que, ao longo da vida, ouviu diferentes hipóteses médicas, mas nunca recebeu um diagnóstico definitivo. Mesmo diante do preconceito e das barreiras sociais impostas pela deficiência, Maria das Dores nunca se deixou paralisar.

No início dos anos 1990, Dona Dadá deixou o Maranhão e se mudou para o Amazonas, acompanhada de um irmão de criação e do filho, Hélio. Tornou-se mãe biológica aos 19 anos, fato que sempre despertou curiosidade e surpresa em quem conhecia sua condição física.
Segundo relatou na entrevista, a gravidez ocorreu de forma tranquila, sem intercorrências, e o parto foi normal, realizado em casa. Ela também revelou que o filho foi fruto de um único relacionamento e que o pai biológico morava em Belém, no Pará.
Inicialmente, a família viveu no bairro Tancredo Neves e, posteriormente, mudou-se para o Novo Israel, ambos localizados na zona norte de Manaus, onde Dona Dadá residia à época da entrevista.
Ao longo da vida em Manaus, Dona Dadá teve contato com promessas de apoio feitas por políticos locais. Entre elas, a de que receberia um terreno e auxílio para melhorar suas condições de vida. Embora tenha conseguido um espaço para morar, muitas dessas promessas não se concretizaram.
Com esforço próprio, ela e o filho construíram uma casa simples de madeira, levantada aos poucos. A principal fonte de renda vinha de uma pensão concedida pelo estado do Amapá, benefício que, segundo ela, foi negado no Amazonas e no Maranhão.

No Centro de Manaus, Dona Dadá ficou conhecida por uma habilidade que impressionava quem passava: ela desenhava e pintava utilizando a boca, segurando lápis e pincéis com os dentes. Autodidata, desenvolveu a técnica sozinha, movida pela persistência e pela fé.
As obras eram vendidas no próprio local e garantiram, por muitos anos, parte significativa de sua renda. Dona Dadá fazia questão de afirmar que não mendigava e que vivia do próprio trabalho.
Com o passar do tempo, porém, os dentes usados para segurar o lápis começaram a enfraquecer e cair. Em 2013, ela já não conseguia mais desenhar, fato que considerava uma de suas maiores tristezas, por representar a perda da atividade que lhe dava alegria, identidade e reconhecimento.
Já aos 55 anos, Dona Dadá enfrentava uma rotina marcada por dificuldades. Diariamente, por volta das 8h, saía de casa, no bairro Novo Israel, com ajuda de vizinhos, em direção ao Centro da cidade. Utilizava uma cadeira de rodas antiga e desgastada, que tratava com humor, mas reconhecia a necessidade urgente de substituição, preferencialmente por uma motorizada.
De personalidade forte, misturava ironia, bom humor e reclamações nas conversas. Era devota de Nossa Senhora Aparecida, mantinha fé profunda em Deus e declarava-se flamenguista, assunto sobre o qual falava com entusiasmo.
Na entrevista, também relatou episódios de perseguição e preconceito, inclusive por parte de assistentes sociais e pessoas que a acusavam injustamente de receber uma aposentadoria elevada. Na prática, sobrevivia com pouco mais de R$ 600 mensais, valor insuficiente para custear saúde, moradia e alimentação adequadas.
Apesar disso, dizia gostar de Manaus, embora tenha cogitado deixar a cidade caso as perseguições continuassem — o que nunca ocorreu.
Entre seus maiores desejos estavam concluir a casa, adquirir móveis novos, realizar tratamento dentário para voltar a desenhar e receber uma cadeira de rodas em melhores condições. Também esperava maior reconhecimento e apoio do poder público. Em um desabafo marcante, chegou a afirmar que gostaria de questionar a então presidente Dilma Rousseff sobre a ausência do pagamento do 13º salário.
Dona Dadá faleceu em 2018, mas sua história permanece viva na memória coletiva de Manaus. Mesmo sem braços e pernas, ela transformou a boca em instrumento de arte, sobrevivência e resistência, deixando um legado de superação em meio à dura realidade das ruas da cidade.
