MANAUS (AM) – O empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior afirmou, em depoimento à Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), que integrantes da gestão do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), teriam sido beneficiados por pagamentos de passagens aéreas feitas em dinheiro vivo. As declarações fazem parte das investigações que apuram a atuação de um suposto núcleo de agentes públicos ligado ao Comando Vermelho no Amazonas.
Entre os nomes mencionados no depoimento estão o vice-prefeito Renato Júnior (Avante) e a primeira-dama da capital, Izabelle Fontenelle, conforme documento que integra o inquérito policial.

Ao delegado Marcelo Martins, Alcir Queiroga relatou que a assessora do prefeito, Anabela Cardoso Freitas, presa na sexta-feira (20), realizava pagamentos em espécie pelas passagens aéreas destinadas a pessoas ligadas à cúpula da Prefeitura de Manaus e familiares do chefe do Executivo municipal.
Segundo o empresário, quando as passagens eram destinadas à própria assessora, os pagamentos eram feitos via cartão de crédito. No entanto, quando os bilhetes eram para o prefeito ou pessoas próximas, o valor era quitado em dinheiro vivo, com cédulas de R$ 100 e R$ 50 — e, em algumas ocasiões, notas de R$ 20.

Alcir declarou ainda que os pagamentos em espécie atendiam a um “pedido de David Almeida e demais pessoas da Prefeitura de Manaus”. A maior parte das passagens, segundo ele, teria sido emitida para viagens de lazer.
De acordo com o depoimento prestado à Polícia Civil, foram mencionados:
O empresário afirmou que as passagens também eram emitidas para parentes das autoridades citadas, pessoas que, segundo ele, “orbitavam no entorno dessas figuras públicas”.
Um Relatório de Inteligência Financeira apontou a movimentação de aproximadamente R$ 1,3 milhão vinculados à assessora Anabela Cardoso. O documento, com quase 300 páginas, embasou a decretação da prisão de 24 pessoas suspeitas de integrar organização criminosa envolvida com tráfico de drogas e crimes correlatos, supostamente com participação de agentes públicos.

A transferência do montante tornou-se um dos principais focos da Operação Erga Omnes. De acordo com a Polícia Civil, o valor foi considerado incompatível com a renda declarada da investigada e pode indicar possível lavagem de dinheiro.

Alcir Queiroga afirmou desconhecer a origem dos recursos e declarou não saber se os valores teriam relação com tráfico de drogas ou eventual desvio de verbas públicas. Ele também questionou o montante apontado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), afirmando não saber “de onde o órgão tirou esse valor”.
O relatório aponta que o valor teria sido transferido para Alcir, proprietário da empresa Revoar Turismo, classificada pela investigação como empresa fantasma.
Segundo a Polícia Civil, diligências indicaram que a empresa não possuía sede física real nem presença ativa na internet. Além disso, consultas às companhias aéreas GOL e Latam apontaram que não houve emissão de passagens entre 2021 e 2025, período analisado.
A apuração também incluiu consultas a cartórios de Manaus para verificar eventual compra ou venda de imóvel que pudesse justificar a movimentação financeira, mas nenhuma transação foi identificada. Para os investigadores, a ausência de lastro documental reforça os indícios de ocultação de ativos.
Anabela Cardoso é investigadora da Polícia Civil, mas estava cedida à Prefeitura de Manaus no momento das apurações. Segundo o relatório, ela exercia a função de Coordenadora do Gabinete Pessoal do prefeito David Almeida — cargo considerado estratégico dentro da estrutura do Executivo municipal.

O documento também menciona que a servidora já havia sido cedida anteriormente à Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), apontando trânsito institucional em diferentes esferas da administração pública.
A Polícia Civil afirma que as investigações continuam para esclarecer a origem dos recursos, o eventual vínculo com organização criminosa e a possível participação de agentes públicos.
Até o momento, as pessoas citadas no depoimento não tiveram condenação judicial. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos das autoridades mencionadas.
FONTE – REVISTA CENARIUM